MUITO ALÉM DO FILTRO SOLAR

MUITO ALÉM DO FILTRO SOLAR

Conversamos com o professor José Antônio Sanches, dermatologista e coordenador da Dermatologia Oncológica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, sobre a importância de se atentar aos sinais da pele, fazer os exames de detecção precoce regularmente e outros temas relevantes sobre o câncer de pele

LEVE COM VOCÊ: Sabemos que a exposição à radiação solar é o principal fator de risco para o câncer de pele, mas o tipo de pele também tem alguma influência?

PROF. JOSÉ ANTÔNIO SANCHES: Sim, temos gradações para os tipos de pele, que vão do fototipo 1, que é aquele indivíduo com a pele muito clara, olhos e cabelos claros, que se queima facilmente, mas não se bronzeia, até o fototipo 6, que é a pele negra, com alta concentração de melanina e mais resistente ao sol. Claro, a proteção solar é mandatória para todos os tipos, mas pessoas com o fototipo 1 são muito mais suscetíveis a desenvolver um câncer de pele.

Existe alguma relação entre o processo de descascar e o câncer de pele?

A descamação é uma proteção e um aviso. O que acontece é que a radiação solar causa um dano profundo nos queratinócitos, que são as primeiras células da epiderme, e a descamação é mecanismo do corpo para se livrar das células doentes, justamente para evitar que elas virem um tumor. O problema é que, ao fazer isso frequentemente, acaba sobrando algum dano no DNA das células, e você pode acabar tendo um câncer de pele por causa dessa lesão no material genético. Ou seja, quem descasca com frequência, deve se atentar a esses sinais.

As ondas de calor severas que tivemos em 2023, e que devem continuar, aumentam o risco para o câncer de pele? Quais impactos o aquecimento global deve ter sobre a nossa saúde?

Certamente, ainda vão publicar muitos estudos sobre a relação entre aquecimento global e cânceres, mas, especificamente sobre o calor, é importante diferenciar os raios ultravioletas, principais agentes causadores do câncer de pele, e os raios infravermelhos, responsáveis pelo calor. Ambos são gerados pelo sol, mas nos impactam de maneiras diferentes. O aumento do calor, da temperatura, diz respeito à radiação infravermelha e, nesse sentido, o que vemos com mais frequência são outros problemas sistêmicos, como a queda da pressão arterial e até alterações no nosso metabolismo, que pode levar a outras disfunções, como a diminuição das nossas defesas, nos deixando suscetíveis a diversas doenças.

Então o risco para câncer de pele não aumenta necessariamente com o aumento da temperatura?

Quando falamos do sol, o risco para o câncer da pele está sempre relacionado à exposição à radiação ultravioleta. Por isso, um dia nublado e mais fresco em uma praia, por exemplo, pode ser perigoso, já que os raios estão lá, porém filtrados pelas nuvens e sem a sensação de calor, fazendo com que muita gente se descuide da proteção solar.

Considerando a nossa necessidade de vitamina D, cuja maior fonte é o sol, e a necessidade de evitar a exposição demasiada, qual é a solução? Ainda é válida a recomendação de buscar o sol da manhã ou do fim da tarde?

Sim, antes das 10h e depois das 16h. E, nestes horários, é importante a ação do sol na pele desprotegida – ou seja, sem protetor solar – para a síntese de precursores da vitamina D. Mas não há necessidade de exposição intensa. Para pessoas com a pele clara, tomar sol de 10 a 15 minutos nos braços e dorso superior, em torno de 3 vezes por semana, bastam. As peles mais escuras, como são mais resistentes, podem precisar de maior exposição. Muitas vezes é necessária a suplementação oral em indivíduos com deficiência de vitamina D. E, de modo geral, outras recomendações válidas são usar protetor solar e outras barreiras mecânicas contra o sol, como chapéu, guarda-sol, roupas com fator de proteção etc. Vale pontuar ainda que, além do câncer, o sol em excesso também provoca o envelhecimento precoce da pele. Um dado curioso é que tomar muito sol causa um envelhecimento na pele semelhante ao do cigarro. Por isso, é preciso olhar para a pele com esse cuidado, e desde muito cedo. Informação, prevenção e proteção são os melhores caminhos, sempre.

“Acho essencial não transformar o sol em um vilão. O sol é maravilhoso, não adianta querer apagá-lo, mas é preciso saber aproveitá-lo da maneira correta. Temos que ter em mente que a exposição em demasia lesiona a pele e seus efeitos são irreversíveis”

Professor Dr. José Antônio Sanches,
Dermatologista e coordenador da Dermatologia Oncológica do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

José Sanches

E quando falamos em prevenção e diagnóstico precoce, quais são as alternativas?

No caso de câncer, falamos em prevenção primária, que é evitar a exposição aos agentes de risco, e a prevenção secundária, que é rastrear ativamente a pele com o objetivo de detectar a doença precocemente, o que aumenta muito as chances de cura. Aqui no Hospital, fazemos um mapeamento digital de toda a pele, da cabeça aos pés. A avaliação é programada, fixa e reproduzível em qualquer exame. Por meio da dermatoscopia, uma lente de precisão sobre a pele, consigo analisar se uma lesão é suspeita. Caso seja, posso indicar a remoção ou o monitoramento daquela formação, a depender do seu tipo. E, caso seja um câncer, trabalhamos em conjunto com o Centro Especializado em Oncologia do Hospital para determinar o melhor tratamento para o paciente.

Na opinião e na experiência clínica do senhor, qual é a importância de um movimento como o Dezembro Laranja para o combate do câncer de pele?

Muito importante, porque estamos falando de uma doença muito prevalente, com altas chances de cura se diagnosticada no início, mas que tem tipos de tumores mais agressivos, como o carcinoma espinocelular e o melanoma, que, quando avançados, podem se tornar mais graves. Mas, mais do que falar em proteção solar – que é extremamente necessária, mas não é o suficiente –, precisamos conscientizar as pessoas de que a pele precisa entrar em uma rotina de check-up. Ou seja, para diagnosticar um câncer de pele no início, é necessário que o paciente seja proativo com a própria saúde: que visite o dermatologista com regularidade e fique atento aos sinais que a pele dá.

Oncologia Câncer de pele Matéria Texto

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