TRANSBORDANDO

O esgotamento mental causado pelo excesso de afazeres atinge cada vez mais pessoas e pode levar a patologias como síndrome do pânico e síndrome de burnout; saiba como evitar chegar à fadiga extrema e ter uma vida mais leve

A paulistana Carol Signorini tinha uma meta profissional definida: trabalhar como figurinista na maior emissora do país. Quando voltou de uma longa temporada em Paris, onde fez um curso na área, o trabalho sonhado caiu em seu colo e, meses depois, lá estava ela em uma nova cidade, pronta para começar a tão esperada etapa de sua carreira. Mal imaginava que, quatro meses depois, voltaria correndo para São Paulo – e com uma crise de pânico de brinde.

A jornada exaustiva de trabalho, a busca incessante por uma moradia e as longas distâncias percorridas até a emissora, somadas à solidão na cidade nova, transformaram o sonho em pesadelo. Carol estava à beira de um colapso. “No dia em que minha chefe gritou comigo sem nenhuma razão grave, tive uma descarga de adrenalina tão forte que saí andando e até esqueci a bolsa em cima da mesa”, recorda, sete anos depois.

Carol ultrapassou todos os limites do seu corpo. “Todo mundo suporta cargas e tem a capacidade de dar algo a mais de si ao outro ou ao mundo. O que machuca é quando passa desse ponto: aí o corpo adoece”, explica o psicólogo Danilo Faleiros, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Isso acontece, segundo o especialista, tanto pela sobrecarga maior que uma pessoa coloca em seu dia a dia como pela durabilidade daquilo que a estressa – no caso de Carol, o principal fator era o excesso de trabalho.

Entenda as diferenças

  • Síndrome de burnout – quando há um esgotamento físico e mental que prejudica o sono, a concentração nas tarefas e a memória.
  • Ansiedade generalizada – quando há preocupação e expectativa excessivas em relação a tudo. Também afeta sono e concentração.
  • Síndrome do pânico – extremo de uma ansiedade que seria normal. O corpo reage como se estivesse se defendendo de uma grande ameaça e coloca a pessoa o tempo todo em estado de alerta. Tremedeira, boca seca, falta de ar e taquicardia são algumas das reações. Muito comum a pessoa com pânico achar que está tendo um enfarte.

Muita informação, pouca diversão

As longas horas despendidas trabalhando já são, por si só, cada vez mais estressantes. O problema é que, junto do personagem profissional, cada um vai somando outros papéis sociais, o que gera uma vida multitarefas. Quando vê, após o expediente, se passou o que restava do dia cumprindo tarefas domésticas e burocracias ou resolvendo a vida dos filhos e outros parentes. “Até pouco tempo atrás, o dia se dividia perfeitamente em três partes: oito horas para dormir, oito para trabalhar, oito para fazer o que quisesse. O problema é que essas últimas oito horas estão sendo gastas em trabalho, trânsito, coisas da casa. E sempre com aquele sentimento de que não se fez tudo o que precisava”, diz Faleiros. Para piorar o cenário, as redes sociais geram uma pressão pela vida feliz e perfeita, o que só rende mais ansiedade e depressão. “Vivemos em uma sociedade parametrizada demais, na qual perdemos a capacidade de pensar no que é bom para nós mesmos, achamos que o bom é aquilo que o outro tem”, comenta o psicólogo. Além de provocar essa sensação de que a grama do vizinho é sempre mais verde, a vida digital não nos deixa desconectar, parece que nunca nos desligamos daquilo completamente.

Não é à toa que os diagnósticos de ansiedade e depressão têm aumentado. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, o Brasil é considerado o país mais ansioso do mundo – e a depressão é a segunda causa de afastamento do trabalho. No geral, a pessoa só se dá conta do problema quando já está com alguma doença, sejam as psiquiátricas, como depressão, síndrome do pânico, síndrome de burnout (ver quadro), ansiedade generalizada ou até doenças físicas. A gerente administrativa Ana*, 40 anos, passou uma semana internada por causa de um herpes zoster que estourou no olho – doença que gera dores intensas em nervos e que surge em quem teve catapora. Zoster é mais comum em idosos ou pacientes com baixa imunidade. Trabalhando cerca de 12 horas por dia e com dois filhos pequenos, Ana acumulou tarefas, cansaço e deixou o corpo indefeso.

Tanto Carol como Ana ignoraram todos os estágios anteriores. Quando o corpo sente que está passando do ponto, se manifesta de alguma forma, seja com crises frequentes de enxaqueca, gastrite, intestino preso ou solto demais, distúrbios do sono, da alimentação, alergias e até sintomas mais graves, como uma úlcera. É nesse momento que se deve prestar atenção aos sinais e buscar ajuda profissional. “Se a pessoa consegue identificar o que a está colocando nesse estado e mudar de direção, ótimo.

Ela ataca as causas em vez de ter que, posteriormente, tratar os sintomas”, diz Faleiros. Ana tratou o zoster, a ansiedade e o medo de passar por aquilo de novo. Como Carol, procurou abordagem psiquiátrica, psicoterapêutica e espiritual. Carol, hoje com 35 anos e esperando a primeira filha, vê tudo o que passou como um grande aprendizado e sabe as ferramentas que tem para não reviver a experiência – por exemplo, mudou de profissão. Já Ana revisou a vida toda e mudou de rumo: pediu demissão e está de malas prontas para migrar para o interior de São Paulo com o marido e os dois filhos, em busca de todas as horas de lazer e ócio perdidas nos últimos anos. “A vida é maior que o trabalho. Tem tantas coisas que eu ainda quero aprender, fazer e descobrir. Mas é preciso ter tempo para tudo isso”, diz. “Parece uma mudança radical, mas radical é viver essa vida que vivi até agora.”

Quatro dicas para evitar o esgotamento

  1. Reflita se você está indo além do que aguenta. Detecte o que lhe causa esgotamento e tente eliminar ou atenuar o que está ruim.
  2. Reconecte-se com o que é importante para você. Mas lembre-se: tudo tem o lado bom e o ruim – ajuste as expectativas.
  3. Tenha um espaço de conversa, pode ser com amigos, família, apoio espiritual ou com um psicólogo profissional.
  4. Faça exercício físico: além de liberar endorfina, hormônio do bem-estar, é um tempo com você mesmo (importante: desligue o celular).

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