A FELICIDADE DE CADA UM

Ser feliz é o que todos queremos, mas o que é exatamente a felicidade? Conversamos com professores, escritores, especialistas e com gente que se considera feliz de verdade. As respostas, como se espera, são diferentes, mas concordam em duas coisas: felicidade não é uma receita pronta, nem se resume a viver uma vida sem problemas e dificuldades

Para alguns, a felicidade não existe. “O que existe na vida são momentos felizes”, dizem, fazendo coro ao cantor Odair José. Já os existencialistas estão mais para Tom Jobim, para quem “a felicidade é como uma gota de orvalho numa pétala de flor, brilha tranquila, depois leve oscila, e cai como uma lágrima de amor”. E há ainda a turma do Gonzaguinha, que explode em excitação ao cantar “Viver e não ter a vergonha de ser feliz”. Felicidade é um conceito tão subjetivo que não há compositor que dê conta de defini-lo. No dicionário ela aparece até como sorte, já para a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um estado de bem-estar. Como se pode ver, cada um tem sua própria opinião sobre o que é ser feliz: o Odair, o Tom, o Gonzaguinha, o dicionário, a OMS, eu e você.

O problema é que, na sociedade contemporânea, a felicidade virou uma obrigação, mais um item a ser preenchido na longa lista de afazeres e conquistas – pressão ampliada pela polifonia das redes sociais. Resultado: buscar a felicidade tem nos tornado infelizes. Pensando nisso, o professor Wander Pereira da Silva, da Universidade de Brasília (UnB), inspirado em experiências de universidades americanas como Harvard e Yale, sugeriu a criação da disciplina “Felicidade”, a primeira do gênero no Brasil. Preocupado com as altas taxas de depressão e de evasão dos alunos, Wander sentiu que era necessário criar um espaço para trabalhar as emoções. “Nós, professores, não podemos achar normal que os alunos fiquem deprimidos e ansiosos e não fazer nada a respeito”, diz.

O curso começou em agosto deste ano no campus de engenharia da UnB e conta com 240 alunos. Para criar a disciplina, Wander, que é doutor em psicologia, fez o “The Science of Well-Being”, curso da Yale criado pela psicóloga Laurie Santos, hoje oferecido online gratuitamente. No método de Wander não existe prova; a avaliação é feita por meio de um projeto chamado “produto de felicidade”: em grupos, os alunos criam um produto que poderá ser apresentado da forma criativa que eles escolherem (dança, teatro, blog etc.). “A gente parte da premissa de que felicidade é uma experiência subjetiva e que não adianta passar receita de bolo. A principal característica da disciplina é que ela é vivencial e precisa ser exercitada”, diz o professor.

Ensinar felicidade na universidade é coisa nova. No entanto, ela já vem sendo discutida em escolas livres, como na School of Life, que tem filial em São Paulo, e em palestras, livros, workshops. Se, por um lado, as propostas são positivas, por outro, muitas vezes os ensinamentos são resumidos a fórmulas – as tais receitas de bolo –, característica comum a livros de autoajuLEVE 08 . SET/NOV 2018 Fotos: Shutterstock, arquivo pessoal da, programas de TV e canais de YouTube, que, por vezes, se mostram incapazes de lidar com as subjetividades de cada um. Ou pior: colocam a felicidade como uma missão fácil e garantida, gerando ainda mais frustração e decepção para quem não consegue alcançá-la.


O QUE É SER FELIZ?

Convidamos especialistas de diferentes áreas para contar o que a felicidade representa para eles

“Felicidade é um estado de espírito que gera paz, harmonia, alegria e amor por ser e não por ter. Independe do mundo aqui fora porque ela habita nossos corações. A felicidade deve ser convidada a entrar em nós como um hábito e, como todo hábito, pode ser treinado. É preciso intenção, disciplina e prática. O momento mais feliz do meu dia é quando me recolho através da meditação, permanecendo em silêncio, ouvindo as mensagens inspiradoras da minha alma.”

MÁRCIA DE LUCA, instrutora de ioga e meditação e escritora

A TRISTEZA COMO MESTRA

“Oque é a felicidade? Me perguntam isso no consultório com frequência”, conta Danilo Faleiros, psicólogo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. “Não existe resposta simples para algo tão particular, mas tento apontar alguns caminhos importantes para que cada um ache a sua maneira de ser feliz.” Danilo costuma usar um exercício muito simples com seus pacientes, no qual pede que esmiúcem o que gostam e o que não gostam [ver no boxe ao lado]. Parece fácil, não é mesmo? Pois Danilo percebeu que muitos nem sequer sabem do que gostam. “Como uma pessoa vai ser feliz se nem sabe o que a faria feliz?”, questiona.

É preciso se conhecer bem para saber o que agrada. E autoconhecimento envolve lembrar que não somos só alegria o tempo todo. Tristeza, raiva, impaciência, angústia e outros sentimentos dos quais não gostamos são peças de fábrica e não podemos nos livrar deles. Pelo contrário, precisamos aprender a usá-los a nosso favor. Mas atenção: não confundir tristeza com depressão. “Os transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade, são doenças e precisam ser tratadas adequadamente”, explica a Dra. Débora Kinoshita, psiquiatra do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Os casos de depressão crescem a cada ano no Brasil. De acordo com a OMS, 5,8% dos brasileiros (ou 11,5 milhões de pessoas) sofrem desse transtorno, superando a média mundial, de 4,4%. Com um maior número de casos há, também, uma maior disseminação de informações sobre as doenças. “O que é positivo. Dessa forma, mais gente recebe tratamento psiquiátrico correto, deixa de sofrer desnecessariamente e não se sente mais uma pessoa fraca e incapaz porque não consegue ir atrás da felicidade como os outros”, diz a especialista.

Nesses casos, o papel de profissionais como psiquiatras e psicólogos é ajudar a tratar a doença para, então, restabelecer a capacidade da pessoa de utilizar suas próprias habilidades para resolver problemas. E, assim, buscar ser feliz à sua maneira.


“Felicidade é consciência expandida: aceitar que nunca estará tudo bem, que sempre teremos problemas e angústias, mas que isso faz parte da vida tanto quanto as alegrias e os bons momentos. Felicidade é a paz interior que alcançamos quando conseguimos ser donos da nossa vontade, quando reconhecemos que somos livres para escolher, e que a parte da qual não temos controle (os imprevistos do destino) nos entristece, até nos enfurece, mas não tem o poder de aniquilar a gratidão por estarmos vivos.”

Martha Medeiros, escritora

Ranking da felicidade

OS PAÍSES MAIS FELIZES DO MUNDO

  1. FINLÂNDIA
  2. NORUEGA
  3. DINAMARCA
  4. ISLÂNDIA
  5. SUÍÇA
  6. HOLANDA
  7. CANADÁ
  8. NOVA ZELÂNDIA
  9. SUÉCIA
  10. AUSTRÁLIA

28. BRASIL

“Minha mãe pegou dinheiro emprestado para comprar o material escolar e foi pagando com as costuras que fazia. E eu fui feliz da vida para a escola”

Irmã Helena, coordenadora da Apam (Associação Paulista de Amparo à Mulher)

EM BUSCA DA FELICIDADE PRÓPRIA

Viver experiências novas, dar sentido ao que fazemos – da profissão às relações pessoais –, fazer exercícios físicos, dar menos valor às conquistas materiais e mais às sentimentais, estar rodeado de gente de quem se gosta. O psicólogo Danilo poderia até dizer, em linhas gerais, que a felicidade é construída a partir de tudo isso, mas reforça: cada um deve buscar seu próprio caminho.

Aos 38 anos, Helena Rocha, mais conhecida como Irmã Helena, pode dizer que já encontrou o seu, não sem antes batalhar muito. Freira da Congregação Mensageiras do Amor Divino, Helena é a filha mais velha de um casal de agricultores do sertão baiano e, quando menina em Bom Jesus da Lapa, fez o que podia para realizar aquele que era seu maior sonho: estudar. “Sempre fui uma menina feliz por ter uma família.

Nunca passamos fome, mas vivemos momentos difíceis. Na zona rural, tudo dependia da colheita e, às vezes, a colheita não era suficiente”, conta.

Para estudar, coisa que só fez aos 8 anos, Helena enfrentou a resistência do pai, mas contou com o apoio da mãe. “Era época de chuva, tempo de plantar, e meu pai queria que eu fosse puxar os bois para preparar a terra. Nisso ia metade do dia!”, recorda. A mãe enfrentou o pai e disse que ela precisava ir à escola. “Minha mãe pegou dinheiro emprestado para comprar o material escolar e foi pagando com as costuras que fazia. E eu fui feliz da vida para a escola.”

A determinação da menina, somada à firmeza da mãe, deu resultado. Helena continuou os estudos na cidade, onde teve que trabalhar como doméstica para se sustentar, e, já como mensageira, se mudou para São Paulo, onde fez faculdade de serviço social e pós-graduação em Gestão Financeira e Orçamentária. Desde 2012, trabalha como coordenadora da Apam (Associação Paulista de Amparo à Mulher), um Centro de Cidadania da Mulher, e faz planos para seguir estudando. “A vida religiosa, além de me fazer meditar, também trouxe conhecimento, autoconhecimento, e o que mais gosto, poder estar no meio de gente”, resume Helena, com seu sorriso aberto.

Cássio Bravin Setúbal, 36 anos, também pode dizer que já entendeu sua jornada em busca da felicidade própria. Depois de passar um tempo perseguindo o que ele chama de “mito do paraíso”, no qual deveria cumprir metas para, enfim, alcançar o “feliz para sempre” do final das histórias, Cássio percebeu que a felicidade não está nas conquistas, mas no movimento da vida, no equilíbrio entre os momentos bons e ruins. “Para entender o que era a felicidade, tive que me livrar dessa grande ilusão que vendem para a gente, tive que desconstruir mitos e achar, ao longo de um processo individual e muito íntimo, o que era a minha verdade”, diz o capixaba que vive há 11 anos em Brasília.

Psicólogo que atende vítimas de violência e agressores, Cássio sabe que os fatores externos influenciam nossos ânimos e não dá para fugir disso [ver no boxe ao lado], mas que a jornada pelo que faz bem a cada um é particular. “Hoje, sei que os momentos em que sou mais feliz são aqueles em que me sinto em conexão com pessoas, seja com minha mulher e meus dois filhos, seja no trabalho, ou até mesmo quando passo por uma pessoa que sorri para mim na rua.”

DINHEIRO TRAZ FELICIDADE, MAS NÃO PRECISAMOS DE MUITO

Ao longo da última década, várias pesquisas foram feitas mundo afora para medir a relação entre dinheiro e felicidade e todas chegaram à mesma conclusão: dinheiro é fundamental para uma vida feliz, mas não precisa ter tanto quanto se imagina. Uma pesquisa do Instituto Gallup deste ano, feita com mais de 1,5 milhão de pessoas em 164 países, chegou a um número: uma renda anual entre US$ 60 mil e US$ 75 mil é o teto. A partir disso, ou seja, uma renda mensal maior que US$ 6.250, não traz mais felicidade. O problema é que esse valor convertido em reais no câmbio atual chega a mais de R$ 25 mil, um salário de bem poucos no Brasil. Por isso, a Fundação Getulio Vargas fez uma pesquisa similar em solo nacional. A conclusão: pessoas com salários entre R$ 5.250 e R$ 10 mil são as mais felizes.

“Particularmente, creio que felicidade é um projeto de vida de longuíssimo prazo, com altos e baixos, idas e vindas, no qual predomina um estilo de vida que pode ser qualificado como significativo em termos de autorrealização. Não é questão de autoajuda, porque esta é enganosa com suas fórmulas prontas, vindas de fora; é construção interna, aprendizagem profunda e que nunca termina, e muito pessoal. É nunca estar satisfeito – quem ‘se satisfaz’ cessa de se autorrenovar ou buscar novos desafios. No meu caso, estou relativamente satisfeito. A satisfação que vale a pena é a que abriga uma dose importante de insatisfação consigo mesma.”

PEDRO DEMO, sociólogo e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

“Os momentos em que sou mais feliz são aqueles em que me sinto em conexão com pessoas”

Cássio Bravin Setúbal, psicólogo

A FELICIDADE QUE VEM DE FORA

Quanto o cenário externo afeta a felicidade de cada indivíduo? Muito, por mais que a felicidade seja um exercício individual e subjetivo. Isso porque questões como emprego, casa, saúde e renda são itens básicos para a vida de uma pessoa. Vejamos o caso do Brasil, um país conhecido mundialmente por ser solar, alegre e, logo, mais feliz que outros até mais ricos. Em 2016, o país estava entre os 20 países mais felizes do mundo, de acordo com o Relatório Mundial da Felicidade, feito pela ONU. Este ano, caímos para a 28a posição. Há anos atravancado numa crise social e econômica, com tensões políticas e consequências diretas como desemprego e empobrecimento, o Brasil está cada vez mais infeliz.

Em contraposição, as nações nórdicas são as mais felizes. É um paradoxo, já que países com clima frio também registram altos índices de depressão. No entanto, o Relatório da ONU, que leva em consideração desde fatos objetivos como PIB per capita até os subjetivos, como sentimento de liberdade em relação à própria vida e generosidade, mostra que o clima é a menor das questões que influenciam nosso estado de ânimo.

A felicidade é um hábito mental positivo e vibrante, pelo qual sentimos satisfação com nós mesmos e com o mundo à nossa volta. Podemos aprender a ser felizes, pois a felicidade é um estado cultivado à medida que amadurecemos emocionalmente. Uma vez que aprendemos a reconhecer o que gera e o que não gera equilíbrio interno, desenvolvemos a sabedoria intuitiva capaz de nos orientar em nossas escolhas. Felicidade requer autorregulação emocional: a capacidade de harmonizar os estados de medo, dúvida, raiva e irritação diante das vicissitudes da vida. Eu me considero uma pessoa feliz, principalmente nos momentos nos quais há coerência e harmonia entre o que se passa dentro e fora de mim, seja quando estou com pessoas, seja quando estou com mim mesma.”

BEL CÉSAR, psicóloga e escritora

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