OMS classifica vício em jogos eletrônicos como doença. Confira sobre o assunto na reportagem da Revista LEVE | Hospital Alemão Oswaldo Cruz

OMS classifica vício em jogos eletrônicos como doença. Confira sobre o assunto na reportagem da Revista LEVE

Vício Virtual

A classificação do transtorno dos jogos eletrônicos como uma doença pela OMS levanta o alerta sobre as consequências físicas e emocionais do tempo excessivo gasto em games, principalmente entre os jovens.

Por Paulo Sérgio Fernandes

Um jogo de raciocínio, cujo objetivo é enfileirar docinhos da mesma cor, tornou-se nos últimos anos um dos maiores fenômenos da indústria de games, inclusive entre adultos. O poder viciante desse aparentemente inofensivo quebra-cabeça virtual virou piada na internet, com memes bem-humorados sobre como parar de jogá-lo. Na vida real, porém, o assunto está longe de ser engraçado para muita gente.

No começo do ano, o músico David*, 36 anos, se separou da esposa por causa do tempo que passava jogando diversos games. “Ela confessou que muitas vezes saía do trabalho sem nenhuma vontade de voltar para casa porque sabia que ia me encontrar grudado no computador ou no celular”, conta ele, que ficava entre sete e oito horas diárias jogando, principalmente de madrugada.

No dia 18 de junho deste ano, o problema de David entrou oficialmente no rol de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS), classificado como gaming disorder (transtorno dos jogos eletrônicos, em português). Trata-se, segundo a OMS, de um padrão de comportamento que prejudica a capacidade de controlar a prática dos games, de modo a priorizá-los em detrimento de outras atividades e interesses. A expectativa dos especialistas é que o reconhecimento do vício em games como um distúrbio mental resulte em medidas relevantes de prevenção e tratamento. “A classificação dá legitimidade ao problema, que deverá ter aquelas características determinadas para ser diagnosticado como transtorno dos jogos eletrônicos”, explica o Dr. Aderbal Vieira Junior, psiquiatra e coordenador do Ambulatório de Dependências do Comportamento da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

David identifica que seu descontrole em relação aos games começou em 2009 e foi agravado com o boom dos jogos para smartphones, que passaram a fazer frente aos aparelhos de videogame caseiros. “Em uma semana, cheguei a jogar um game de adivinhação de músicas com 180 pessoas diferentes na rede”, conta, acrescentando que os danos não se limitam à sua vida pessoal. “Muitas vezes estou no palco tocando, mas já pensando que, após o show, poderei ir para o meu carro, carregar o celular e jogar, antes mesmo de voltar para casa.”

Para o músico, o jogo que mais lhe causou prejuízo foi o game que os usuários montam seus times de futebol com jogadores conhecidos e pontuam de acordo com o desempenho real deles no Campeonato Brasileiro. Seu envolvimento foi tão grande que ele criou um site para dar dicas aos fãs do game. “Em casa, dizia que aquilo era um trabalho e que ia dar dinheiro. Mas era só uma desculpa. O dinheiro não era o mais importante, assim como ganhar ou perder também não. Para um viciado, jogar é o mais importante.”

DIA E NOITE NA FUNÇÃO

Assim como em casos de dependência química ou de vício em jogos não eletrônicos, a gaming disorder provoca uma sensação de perda de liberdade, já que a pessoa não joga porque quer, mas porque se sente na obrigação de fazê-lo, mesmo com os danos causados à vida familiar, social e profissional. Dentro do universo virtual, há ainda outro complicador: o envolvimento de pessoas mais jovens, que têm uma capacidade crítica menor e acabam trocando a vida social pela online com naturalidade, já que cresceram na era dos smartphones. “Tenho atendido jovens que não aceitam que têm um problema, que não veem mal em ficar jogando por horas”, afirma o Dr. Aderbal.

O especialista alerta que muitos adolescentes passam madrugadas inteiras participando de jogos de campanha (quando o jogador finaliza ou “zera” a história de um jogo), que duram dias. No exterior, disputas desse tipo já provocaram a morte de pessoas por trombose ou por esgotamento decorrente da falta de alimentação. “Houve o caso de um jovem aqui no Brasil que começou a usar fralda para não precisar ir ao banheiro e interromper o jogo”, revela o Dr. Aderbal.

O Dr. Adriano Segal, psiquiatra do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, aponta a obesidade, a inatividade física e problemas posturais como prejuízos frequentes para a saúde do jogador compulsivo. “As consequências mais graves, no entanto, até pela facilidade de acesso aos jogos atualmente, se refletem na ausência de vida afetiva, social e até profissional”, reforça.

RAIZ DO PROBLEMA

David conta que, durante oito anos, fez terapia para tratar uma compulsão sexual, além de identificar certo nível de depressão. “O que eu enxergo hoje é que acabei trocando uma compulsão por outra.” O Dr. Aderbal confirma a associação entre o comportamento compulsivo e outros transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade. “O mais difícil é identificar o que vem antes: se a depressão é consequência da dependência ou se a pessoa vai buscar nesse comportamento uma forma de aliviar seu mal-estar.”

Como a maioria dos casos de transtorno por games envolve adolescentes, é preciso que a família esteja atenta aos sinais manifestados. Havendo a suspeita, os pais devem conversar com o filho no sentido de promover mudanças em seu comportamento, principalmente quando o abuso ainda for leve. “Os pais geralmente não têm familiaridade com esse universo dos games e o filho passa a viver num mundo à parte. Muitas vezes há a ilusão de que aquilo é positivo, pois, enquanto o filho está trancado no quarto, também está longe das drogas ou de confusões fora de casa”, reforça o psiquiatra.

Para o Dr. Adriano, a ajuda profissional deve ser procurada quando a negociação com o adolescente em casa não for bem-sucedida. “O tratamento deve contemplar o mapeamento da gravidade do quadro e a tentativa de reduzir o vício”, diz. Como ainda há poucos estudos a respeito do problema, não há evidência científica suficiente de que a medicação deva ser aplicada, ficando limitada ao tratamento das comorbidades (doenças associadas ao transtorno, como depressão e ansiedade).

No caso de David, o afastamento da esposa fez o músico tomar a decisão de procurar ajuda. Além do acompanhamento de um psiquiatra, ele frequenta há três meses as reuniões semanais do Jogadores Anônimos (JA), em Mauá, na Grande São Paulo. Lá, ele é o único caso de dependência de games. “No JA, ainda estou no primeiro passo, que é admitir que eu não posso com o jogo, que isso é uma doença”, diz. Após o início do tratamento, David retomou o casamento, mas ainda joga futebol na internet praticamente todos os dias. Das cinco horas que passava jogando, “antes de fazer qualquer coisa”, hoje fica no máximo uma hora depois de acordar, ciente de que o radicalismo é receita quase certa para uma recaída. “Sei que é um vício e que não consigo jogar só por prazer, mas entendo que preciso me afastar aos poucos.”

Principais sinais

Como o comportamento de dependência dos games ou de qualquer outro jogo está associado ao prazer proporcionado por sua prática, o jogador dificilmente relatará sintomas de um possível problema. É preciso que as pessoas que convivem com ele fiquem atentas a certas características manifestadas por um jogador compulsivo. São elas:

  • Jogar mais tempo que o razoável, com prejuízo de outras atividades e de interação social
  • Problemas no rendimento escolar ou profissional
  • Diminuição no tempo de sono
  • Aumento dos conflitos familiares
  • Irritação quando fica afastado do jogo (sinal de abstinência)

Lidando com o problema

A intervenção de familiares deve ser sempre baseada no bom senso, evitando a simples proibição da prática. “Isso só vai causar estresse. Se há uma dependência, o jogador vai acabar recorrendo ao computador ou celular”, alerta o Dr. Adriano Segal, psiquiatra do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. “A ideia é que o jogador tente diminuir a dose do game e aumente o impacto positivo de outras atividades que foram preteridas no dia a dia, para que o jogo vá perdendo a importância afetiva.”

Dois erros comuns cometidos na relação com o jogador, de acordo com o psiquiatra, é fazer um julgamento moral ou compará-lo a um familiar, como o irmão, que não tem o problema. “Atitudes muito críticas não são efetivas. O caminho é trazer a maior quantidade possível de racionalidade para a questão, mostrando os prejuízos, como o afastamento dos amigos ou a queda nas notas escolares. E a partir daí promover a negociação para reduzir o tempo gasto no jogo.”

Menos provável, o jogador compulsivo pode sinalizar para as pessoas próximas que algo está errado com seu comportamento. “Se o gamer resolve impor um limite de 1 hora para jogar, por exemplo, e seguidamente não conseguir, tendo sempre que redefinir esse limite para cima, deve-se pedir ajuda em primeiro lugar para a família. Se não der certo, o caminho é procurar ajuda profissional”, acredita o Dr. Adriano.

Onde procurar ajuda

  • Ambulatório de Dependências do Comportamento do Proad/Unifesp (Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes da Universidade Federal de São Paulo). Telefone: (11) 5579-1543.
  • Programa Ambulatorial do Jogo (PRO-AMJO) do IPq-HC-FMUSP (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). Telefone: (11) 2661-7805.
  • Jogadores Anônimos: jogadoresanonimos.org.br

 

*Nome fictício