Metade dos pacientes internados com Covid tem complicações

Mesmo pessoas mais jovens apresentaram taxas elevadas de problemas na hospitalização, diz estudo

Phillippe Watanabe

São paulo Metade dos pacientes que são internados com Covid-19 desenvolve uma ou mais complicações, segundo o maior estudo do tipo, publicado nesta quinta (15) na revista médica inglesa The I.ancet.

A pesquisa analisou dados de 73.197 pacientes com 19 anos ou mais que receberam atendimento médico, entre janeiro e agosto de 2020, em 302 hospitais no Reino Unido.

Desse total, 36.367 (49,7%) tiveram pelo menos uma complicação de saúde —cardiovascular, respiratória, neurológica, renal, hepática, gastrointestinal e/ou sistêmicas— no período em que estavam no hospital, seja na ala de enfermaria ou em alas de cuidados intensivos.

E passaram a ter mais dificuldade para cuidar de si mesmos após as complicações —algo mais proeminente em pacientes com menos de 50 anos.

Isso mostra um impacto na qualidade de vida, diz Gustavo Prado, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que não participou do e studo. “ É ma is do q ue experimentar uma complicação, é ter, por essas complicações, um impacto sobre a sua condição geral, que diminui a sua independência”, afirma o médico, citando possíveis dificuldades em momentos teoricamente básicos do dia a dia, como tomar banho, trocar de roupa e se alimentar.

Não há dados na pesquisa, porém, sobre a condição dos pacientes após a alta, portanto, não há como saber o desenrolar dessas limitações.

“Vimos que, mesmo empessoas previamente saudáveis, sem comorbidades registradas, complicações foram observadas em quatro em cada dez pacientes hospitalizados”, dizem, no estudo, pesquisadores de instituições britânicas como o Imperial College, a UniversidadedeEdinburgh e a Universidade de Nottingham, entre outras.

“Não podemos presumir que, apenas por ser jovem e não ter doença anterior, o paciente internado por Covid, não vai ternenhuma complicação. Ele já teve uma gravidade de doença suficiente pa ra ser internado”, afirma Prado. “Essa informação muito propagada, principalmente no início da pandemia, que só matavaidosos, não é verdade.”

De acordo com os autores da pesquisa, que continuam
coletando dados prospectivamente, o desenho das políticas públicas têm que levar em conta não apenas a mortalidade ao decidir sobre medidas para evitar propagação, mas também considerar o “risco de complicações de curto e longo prazo paraaquelesque sobrevivem a Covid-19”.

As maiores taxas de complicações foram observadas em pacientes que necessitaram de UTI, algo esperado considerando outros estudos e observações ao longo da pandemia. Cerca de 82% das pessoas que precisaram de UTI tiveram complicações.

As mais comumente observadas foram lesão renal aguda e distúrbios respiratórios e sistêmicos —problemas associados a risco de morte maior. Outras complicações frequentemente encontradas foram lesão hepática, anemia e arritmia cardíaca.

Os menos comuns foram os distúrbios neurológicos, mas, ao mesmo tempo, foram os mais associados à redução de capacidade de autocuidado.

Os dados obtidos pelos pesquisadores mostram ainda o aumento da incidência de complicações conforme avançam as faixas etárias. Nas pessoas sem comorbidades de 19 a 29 anos, cerca de 21% (178 em um grupo de 839) apresentaram complicações.

Considerando o grupo etário de 19 a 49 anos, quase 39% das pessoas (3.596 de 9.249) tiveram complicações. Por fim, essa taxa sobe para 51% nas pessoas com 50 anos ou mais.

Os autores apontam também que foi observada uma elevada mortalidade na pesquisa, com mais de 23 mil óbitos, ou pouco mais de 31%.

A maior parte das pessoas observadas no estudo era do sexo masculino e branca, a média de idade era de 71 anos e cerca de 81% dos pacientes tinham ao menos uma eomorbidade.
Segundo Prado, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, é importante ter cuidado para não extrapolar os dados obtidos para qualquer caso de Covid. Isso porque a pesquisa foi desenvolvida com pacientes internados, o que pressupõe casos de Covid moderada ou grave.

“Não representa o comportamento médio do paciente daquela idade. Representa o pior subgrupo” diz Prado. “Os pacientes que internam por Covid têm incidência alta de complicações em todas as idades”, afirma.