Vivendo com HIV | Hospital Alemão Oswaldo Cruz

Vivendo com HIV

Cerca de três décadas após o registro dos primeiros casos de aids no mundo, o Brasil enfrenta um cenário preocupante de jovens infectados com o vírus HIV; dados mostram que o medo do diagnóstico, a falta de informação e o preconceito são fatores que contribuem para os números. Por outro lado, soropositivos lutam contra o estigma da doença e mostram que é possível, sim, levar uma vida com qualidade.

O ator Kako Arancibia, 32 anos, tem uma rotina igual à da maioria das pessoas que você conhece. Acorda, come, faz exercícios, trabalha e se diverte. A provável diferença é que, há dez anos, Kako vive com o vírus HIV.

Assim como Kako, muitos soropositivos podem, hoje, seguir em frente com uma vida normal graças aos antirretrovirais distribuídos gratuitamente no Brasil pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Esses medicamentos, ainda que não destruam o vírus HIV, o mantém em níveis muito baixos. “No início, o coquetel tinha muita toxicidade, gerava diversos efeitos colaterais. Atualmente, são adotados esquemas de mais fácil adesão e menos efeitos colaterais”, explica o médico infectologista Dr. Filipe Piastrelli, da Unidade Referenciada Oswaldo Cruz Vergueiro. No entanto, mesmo com os avanços e tratamentos disponíveis, o HIV ainda é um estigma social e o preconceito em torno do vírus só dificulta a prevenção e o diagnóstico precoce, essencial para o não agravamento da condição. Em 2016, a aids (síndrome da imunodeficiência adquirida, em português), doença causada pelo vírus HIV, matou um milhão de pessoas no mundo.

A questão é particularmente urgente no Brasil, em um momento em que cresceu o número de infecções entre a população de 15 a 19 anos – aquela que não viu a primeira epidemia nos anos 1980 e 1990. Segundo o mais recente boletim do Ministério da Saúde, nessa faixa etária as novas infecções subiram de 4,6 casos para cada 100 mil habitantes em 2006 para 6,7 em 2016 – ano em que, no total, o Brasil teve 37,8 mil novas infecções por HIV. Estima-se que 830 mil pessoas vivam hoje com o vírus no país.

Soma-se a esse cenário um aspecto bastante sério da nossa realidade: a desigualdade social e de gênero. Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, os negros morrem três vezes mais que os brancos em decorrência da aids. E as mulheres negras são as que mais morrem por falta de tratamento. Mesmo com a distribuição gratuita dos medicamentos, há uma série de fatores que agravam a situação: a falta de informação e de acesso a remédios mais modernos para a população mais pobre e uma demanda por tratamento que só cresce e corre o risco de não ser suprida – no fim do ano passado, foi denunciada a falta de medicamentos na rede pública de Pernambuco e do Distrito Federal, segundo matéria do G1. Outra questão preocupante é a mudança nas regras de repasse de verbas federais da saúde para os municípios. Agora, fica a critério dos administradores municipais a forma de utilizar as verbas para a pasta. “Enquanto antes o dinheiro tinha de ser gasto obrigatoriamente com determinadas áreas, incluindo campanhas de HIV e aids, agora fica a critério dos prefeitos”, diz Roseli Tardelli, criadora da Agência de Notícias da Aids (agenciaaids.com.br) e do Lá em Casa, um centro de reabilitação física e de convivência para pessoas carentes vivendo com HIV e aids.

A jornalista e militante, que se dedica ao tema desde a morte do irmão, Sérgio Tardelli, em decorrência da aids em 1994, acredita que a mudança traz um risco muito grande. “Aids é um assunto tão com – plexo que é preciso ter campanha permanente, ininterrupta. Sexualidade é o ano todo, não só no Carnaval, no Dia da Mulher, no Dia dos Namorados. A campanha não pode ser pontual”, diz. Com a flexibilização do uso das verbas federais, o pouco recurso que existe pode ser totalmente encerrado. “Os prefeitos estão muito mais sujeitos a pressões morais e religiosas para que simplesmente não se fale do assunto”, afirma Roseli.

CONTRA A INVISIBILIDADE

Apesar de viver com o vírus há uma década, Kako decidiu revelar sua condição apenas no fim de 2016. Antes de lançar um vídeo no Facebook falando da sua sorologia, que já teve mais de 19 mil visualizações, escondia até mesmo da família e dos amigos. “Foi um longo processo. Minha única relação com o vírus, até então, era tomar o remédio todos os dias”, conta. Aos poucos, o ator foi contando para alguns amigos mais próximos, conhecendo grupos que debatiam o assunto e encontrou na sua arte uma forma de se relacionar melhor com a própria identidade. Hoje realiza performances e oficinas para quebrar o tabu que ainda existe em torno do tema. “O imaginário difundido a respeito do vírus e da aids muitas vezes colabora para piorar a experiência do doente mais do que a própria doença”, diz.

Em uma das ações, a Contagiar, inspirada em uma performance da artista Eleonora Fabião, Kako ergue uma placa com os dizeres “VAMOS CONVERSAR SO – BRE HIV E AIDS” em um espaço público, próximo de duas cadeiras, uma de frente para a outra. Ele então se senta e conversa, cara a cara, com quem se dispuser ao diálogo. No fim, propõe ao participante deixar ser pintado com “HIV+” em alguma parte do corpo, a fim de que a pessoa possa “experimentar na pele o que é desfilar por aí com tal símbolo”, explica.

Aos 25 anos, o também ator Leo Braz viveu um processo diferente. Em parte por ter convivido, ainda na adolescência, com um amigo que tinha HIV, Leo assumiu sua condição logo que recebeu o diagnóstico, em abril de 2017. “Eu sempre fui muito aberto, me assumi gay aos 15 anos, então não me sentiria confortável guardando isso para mim”, conta. Atualmente, ele realiza a performance Pós-Afethivo e é parte do elenco do Cabaré Show Drag, que esteve em cartaz em janeiro no Sesc Belenzinho, em São Paulo. Seu número no espetáculo fala sobre sua soropositividade.

Não que Leo ou Kako acreditem que seja fácil abrir para o mundo essa condição, tampouco recomendam que todo soropositivo se assuma publica – mente. No livro Histórias da Aids (Autêntica Editora, 2015), do médico infectologista Artur Timerman e da jornalista Naiara Magalhães, um dos entrevista – dos conta como sentia necessidade de falar que era soropositivo para toda mulher com quem começava a sair. Depois de muitos relatos de moças que o rejeitavam, seu médico foi taxativo: quem começa a contar para todo mundo pode vir a sofrer com isso. “Amigos se afastam, relacionamentos tornam-se mais difíceis. Há quem lide bem com isso. E há quem não. O que precisa ficar muito claro é que, se você quer fazer isso, é por opção, e não por obrigação”, afirmou o médico. O infectologista disse, ainda, que é mais seguro fazer sexo com alguém que sabe que é soropositivo e se trata do que com alguém que não faz testes de HIV regularmente. Como diz Leo Braz, “é preciso ter consciência de que ninguém é negativo. Ou é positivo ou é interrogativo”.

NOVOS AVANÇOS, DIFERENTES CAMINHOS

Três grandes pesquisas divulgadas entre 2015 e 2017 – a mais recente delas, a Partner, acompanhou mais de mil casais sorodiferentes (em que um membro do casal tem HIV e o outro não) – mostraram que, quando a carga viral é indetectável, não há transmissão do vírus.

Baseado nesses estudos e nas recomendações de autoridades como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (Estados Unidos) e a Sociedade Internacional de Aids (Suíça), o Centro de Referência e Treinamento DST/Aids-SP, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, lançou, em dezembro de 2017, nota técnica confirmando a informação. Segundo o documento, “as pessoas vivendo com HIV/aids com carga viral indetectável há pelo menos seis meses e boa adesão ao tratamento têm um risco insignificante de transmitir o vírus pela via sexual”. Isso significa que os casais sorodiferentes podem inclusive ter filhos sem se preocupar em infectar o membro soronegativo do casal ou transmitir o vírus ao bebê.

No mesmo mês, foi anunciado ainda o início da distribuição pelo SUS da Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), que vem como um complemento importante à Profilaxia Pós-Exposição (PEP), disponível desde 2010 (veja mais no box abaixo). “Isso não quer dizer que se deva negligenciar o uso do preservativo. Tanto a PrEP como a PEP não eliminam o risco de transmissão de outras infecções sexualmente transmissíveis, como HPV e sífilis”, alerta o Dr. Filipe.

ESPAÇO SEGURO

Para quem tem no sangue o vírus e o estigma, o que é feito em termos de prevenção ainda é muito tímido. Kako acredita que apenas frisar o uso da camisinha não é efetivo. Uma pesquisa do Ministério da Saúde divulgada em 2017 mostra que ele está certo. De cada dez adolescentes (entre 15 e 19 anos) entrevistados, seis não usaram camisinha em alguma relação sexual no ano anterior. Ao mesmo tempo, nove em cada dez afirmaram saber que o preservativo é a melhor forma de evitar a transmissão do HIV. “É preciso falar de sexualidade em um sentido mais amplo. No contexto que estamos vivendo, pensar e debater corpo, sexualidade e gênero tem sido apedrejado pelo conservadorismo, e isso só colabora para uma incapacidade do jovem de aprender a gerenciar as prevenções possíveis”, diz Kako.

O youtuber Gabriel Estrela é hoje uma das vozes mais ativas da nova geração nesse sentido. Em 2010, com 18 anos, descobriu que tinha o vírus e, desde 2015, mantém uma forte presença nas redes sociais falando sobre o assunto. Em uma palestra no TEDx no ano passado, ele lembra que “o silêncio alimenta o medo”, para se referir ao estigma que o HIV ainda carrega. Para Gabriel, uma educação sexual precisa ser focada em relacionamentos e não apenas no sexo “biológico”, usando como analogia as ilustrações de livros didáticos quando se trata do assunto. A informação, para ele, anda junto com o carinho contra o silêncio. É preciso falar.

PrEP e PEP

Os dois métodos são as mais recentes estratégias de prevenção que devem ser combinados aos recursos já existentes, como o uso de preservativo.

PREP (PROFILAXIA PRÉ-EXPOSIÇÃO)

O tratamento deve ser tomado por quem não está infectado pelo HIV e nunca teve contato com o vírus, mas se expõe ao risco de transmissão. Um exemplo são os indivíduos que se enquadram em grupos mais vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens, travestis e transexuais, trabalhadores do sexo e casais sorodiferentes que têm relações sexuais sem uso de preservativo ou que têm usado a PEP repetidamente.

PEP (PROFILAXIA PÓS-EXPOSIÇÃO)

Medicação antirretroviral de emergência que deve ser tomada até 72 horas após a exposição ou suspeita de exposição ao vírus HIV. O tratamento age impedindo que o vírus se estabeleça no organismo e deve ser seguido por 28 dias. Não deve ser tomado por quem já tem o vírus.

Ambos os tratamentos estão disponíveis gratuitamente pelo SUS. Para saber onde encontrá-los, acesse aids.gov.br. Os dois métodos são as mais recentes estratégias de prevenção que devem ser combinados aos recursos já existentes, como o uso de preservativo

HIV não é Aids. Entenda a diferença:

HIV

É o vírus da imunodeficiência humana, na sigla em inglês. O HIV ataca o sistema imunológico e, ao atingir os linfócitos T CD4+, altera o seu DNA e se multiplica, proliferando a infecção. É importante entender que HIV não é sinônimo de aids. Muitos soropositivos vivem anos sem desenvolver a doença, embora possam transmitir o vírus a outras pessoas. Exatamente por não apresentar sintomas, em muitos casos, a condição só é diagnosticada quando a aids está instalada, como aconteceu bastante no início da epidemia.

AIDS

A síndrome da imunodeficiência adquirida ocorre quando os níveis de células de defesa do tipo CD4 estão muito baixos e, consequentemente, as defesas do organismo ficam completamente abaladas, dando abertura para doenças oportunistas, como tuberculose e pneumonia, que podem matar.

Números do HIV no Brasil

  • Hoje, são cerca de 830 mil soropositivos no Brasil. Destes, estima-se que mais de 100 mil não sabem que estão infectados.
  • Só em 2016, o país registrou 37.884 infecções por HIV.
  • A cada 100 mil jovens brasileiros entre 15 e 19 anos de idade, 6,7 foram infectados em 2016.
  • Em 2006, a relação era de 4,6 casos para cada 100 mil habitantes.
  • Segundo pesquisa feita com adolescentes entre 15 e 19 anos, 60% não usaram camisinha em alguma relação sexual no ano anterior. Ao mesmo tempo, 90% afirmaram saber que o preservativo é a melhor forma de evitar a transmissão do HIV.
  • Em São Paulo, pessoas negras morrem três vezes mais que brancas em decorrência da AIDS.

Teste de HIV: Uma responsabilidade de todos

Das 830 mil pessoas que têm HIV hoje no Brasil, estima-se que mais de 100 mil desconhecem sua condição. Esse, por si só, é um dos grandes riscos de novas infecções. Por isso, perder o medo do diagnóstico e realizar o teste é fundamental. Além dos testes rápidos e gratuitos nos Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) espalhados pelo Brasil, começou a ser vendido em farmácias, em agosto de 2017, um teste instantâneo, com 99,9% de eficácia. Basta furar o dedo e, com uma gota de sangue em um biossensor, tem-se o resultado em até 20 minutos.

Espera-se que, dessa forma, mais pessoas possam iniciar o tratamento e evitar o contágio. Antes de fazer qualquer teste, porém, é preciso esperar 30 dias após a exposição ao risco. Esse período, chamado de janela imunológica, é o tempo que o sistema imunológico demora para produzir os anticorpos que serão detectados no exame. Durante esses 30 dias, é imprescindível não se expor novamente e prevenir possíveis contágios. Por conta da janela imunológica, quem teve contato com o vírus e teve resultado negativo deve repetir o teste em 30, 60, 90 e 120 dias. De modo geral, a testagem deve ser feita por todos, a cada seis meses pelo menos, mesmo para quem está em uma relação estável. Homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis devem fazer com ainda mais frequência.

Em caso positivo, não há motivo para pânico. Deve-se ir a um CTA para fazer um teste comprobatório e, confirmada a infecção, iniciar o tratamento em seguida, além de receber aconselhamento de psicólogos e assistentes sociais.

Autor: ANDRÉ JULIÃO
Data: 06/04/2018
Fonte: Agência de Notícias da Aids (agenciaaids.com.br) UnAIDS (unaids.org.br) Prefeitura de São Paulo (prefeitura.sp.gov.br) Hospital Alemão Oswaldo Cruz