Uma nação sem movimento | Hospital Alemão Oswaldo Cruz

Uma nação sem movimento

Como aspectos culturais e sociais tornaram o Brasil sedentário; quais são os impactos do sedentarismo e da inatividade física na saúde do brasileiro e na economia do país; e as alternativas que organizações públicas e privadas estão buscando para combater o problema.

Por Débora Rubin

O Brasil é um país sedentário. Entre setembro de 2014 e de 2015, mais de 100 milhões de brasileiros acima de 15 anos não praticaram nenhum tipo de exercício físico. Para piorar o cenário, em 2016, 61,7% dos adultos brasileiros (com mais de 18 anos) passaram três horas ou mais, por dia, sentados na frente da TV, do computador ou com o celular em mãos. O primeiro dado faz parte do estudo “Prática de Esporte e Atividade Física” da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, divulgada em 2017. O segundo é da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

Os dois dados cruzados apontam para um caminho perigoso. “A inatividade física somada ao sedentarismo colabora, a cada ano, para o aumento da obesidade no país, a ponto de estarmos próximos do perfil populacional dos Estados Unidos, onde 70% estão acima do peso”, destaca Alex Florindo, professor da Universidade de São Paulo (USP) e atual presidente da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (SBAFS), observando que sedentarismo e inatividade física são coisas diferentes [veja quadro abaixo]. “Há uma relação entre um estilo de vida inativo e sedentário e o ganho de peso progressivo”, complementa a Dra. Lívia Porto Cunha da Silveira, endocrinologista do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. “O fato de andarmos de carro, usarmos controle remoto da TV e do portão vai fazendo com que gastemos cada vez menos energia para as atividades básicas, o que contribui para o acúmulo dessa energia na forma de gordura.” Esse acúmulo, segundo a médica, está relacionado a uma maior liberação de enzimas inflamatórias e o aumento da resistência à insulina, o que contribui para o aparecimento de doenças crônicas como diabetes, dislipidemia e hipertensão arterial.

Sedentarismo x inatividade

Sedentarismo e inatividade física são conceitos diferentes. O primeiro diz respeito ao modelo de vida da pessoa: quanto tempo ela passa sentada, se só usa carro para se locomover, se não faz nenhuma atividade doméstica etc. Já inatividade física é a falta da prática regular de exercícios físicos ou esportes, realizada por ao menos 150 minutos por semana, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Parece estranho dizer isso, mas uma pessoa pode fazer academia três vezes por semana e ainda assim ser sedentária, por passar o resto do tempo parada”, explica o professor Alex Florindo, da Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde (SBAFS).

É necessário, no entanto, destacar que o exercício físico sozinho não tem um papel significativo na perda de peso e, por isso, deve estar associado a outras estratégias, em especial à alimentação. Ainda assim, de acordo com a Dra. Lívia, a atividade física, por si só, já reduz os riscos para a saúde e auxilia no controle de doenças metabólicas, como o diabetes mellitus. “A prática de exercícios está relacionada a uma melhora da sensibilidade do hormônio produzido pelo pâncreas chamado insulina. Com isso, a insulina fica mais efetiva, o que reduz os níveis de açúcar no sangue e os níveis de insulina circulantes”, explica a especialista. “O sedentário não será necessariamente obeso, mas o obeso que pratica atividade física consegue melhorar metabolicamente. Dieta adequada e medicação, quando necessária, podem também proporcionar algumas melhoras fisiológicas em decorrência do exercício”, complementa o Dr. Ricardo Cohen, coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes.

Além da saúde, outro impacto importante do problema está na elevação dos custos para os cofres públicos. A revista médica The Lancet, uma das mais importantes do segmento, utilizou dados oficiais de 142 países do ano de 2013 e divulgou que os gastos com tratamentos e com a perda de produtividade decorrentes de doenças associadas ao sedentarismo em todo o mundo chegaram a 67,5 bilhões de dólares. Somente no Brasil, foram 3,62 bilhões de dólares, algo em torno de 12 bilhões de reais — quase o montante do PIB do Acre no mesmo ano, que foi de 11,44 bilhões.

ADAPTANDO-SE À REALIDADE BRASILEIRA

Segundo a pesquisa do Pnad, as principais razões que impedem o brasileiro de se mover são a falta de tempo (resposta de 38,2% dos entrevistados) e a falta de interesse — 35% disseram não gostar ou não querer fazer exercícios. “Falta de tempo, ao contrário do que costumam dizer, não é desculpa, é um problema sério: estamos trabalhando muito e perdendo tempo em deslocamentos, em especial nas grandes cidades”, argumenta o professor Florindo. “Faltam políticas públicas para que isso seja possível, não podemos culpar só o indivíduo.”

A terceira razão também tem um peso importante: muita gente não conhece ou não encontra uma atividade que lhe dê prazer. “Muitas vezes, o paciente chega ao meu consultório dizendo: ‘Preciso me exercitar!’. Mas não faz ideia do que poderia ou gostaria de fazer e, ao seguir uma recomendação médica específica ou um modismo, pode desistir rapidamente”, alerta o Dr. Ricardo G. Eid, médico do esporte no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, que já foi médico da seleção brasileira de futebol feminino e da seleção de base masculina (sub-15 e sub-16). “É preciso fazer o que se gosta e, para cada idade, as motivações são diferentes”, diz. O especialista acredita que muitos desistem antes mesmo de tentar, justa – mente por não saberem como começar.

Para os que começam, há outro desafio: manterem-se regulares no exercício. Nesse ponto, as taxas de desistência também são altas, e pelas mais variadas razões: falta de acompanhamento e de estímulo, frustração da expectativa, falta de dinheiro, não considerar o investimento uma prioridade ou simplesmente achar aquela atividade muito chata.
Guilherme Leme, gerente técnico da rede de academias Bio Ritmo (do mesmo grupo da SmartFit), conta que a maior parte do público que busca academia tem algum objetivo relacionado à perda de gordura corporal. “Perder peso, melhorar a definição muscular ou reduzir a circunferência abdominal são os objetivos de 80% das pessoas que se matriculam nas academias”, diz. Poucas, no entanto, perseveram. “Os números de evasão infelizmente são elevados. Cerca de dois terços das pessoas, 66%, desistem em menos de um ano. E esse número aumenta quando falamos da população obesa, chegando a mais de 80% de desistentes no mesmo período.” Ou seja, apenas 30% das pessoas passam mais de um ano matriculadas nas academias. “O que, ainda assim, não reflete o número de praticantes assíduos, que certamente é menor”, destaca Guilherme.

O exercício em cada fase da vida

INFÂNCIA: O ideal é mesclar atividades físicas com brincadeiras. O lado lúdico ajuda a ampliar o vocabulário esportivo da criança.
ADOLESCÊNCIA: Esportes coletivos estimulam a competição saudável e a sociabilidade. Fase de descobertas sobre os gostos e aptidões. Importante: academia não é indicada para menores de 14 anos (a não ser que seja um atleta de alto rendimento supervisionado por treinador). ADULTO: Momento de aprimorar o que aprendeu nas etapas anteriores e ampliar o leque de opções: fase para testar novas atividades e descobrir o que se encaixa melhor na rotina agitada pelo trabalho e pela vida doméstica.
IDOSOS: Grandes benefícios em atividades físicas resistidas (como a musculação) e, de preferência, em grupo, o que aumenta a socialização, fundamental para essa fase da vida.
Fonte: Dr. Ricardo G. Eid, médico do esporte do Hospital Alemão Oswaldo Cruz

A VIDA COM ENDORFINA

E o que impulsiona os outros 38% de brasileiros que têm a prática da atividade física como hábito cotidiano? Considerando que poucos o desenvolvem ainda na adolescência e, desses, menos ainda levam a prática adiante, a maior parte dos adultos só passa a se exercitar quando algum alarme toca, seja o da saúde física, o da saúde mental ou o da estética — quando não os três juntos. Mas, uma vez adeptos, sabem a falta que faz a atividade física no dia a dia.

A psicóloga e assistente administrativa Maria Eliane Bezerra da Silva, 45 anos, é um exemplo de brasileira que já esteve nos dois extremos desse retrato social. Até os 30 anos, ela foi uma típica sedentária e inativa. Embora tenha sido uma criança agitada e uma adolescente cheia de energia, nunca teve o incentivo necessário para fazer da atividade física uma rotina. Como sempre esteve acima do peso e sofreu abuso sexual na infância, passou a esconder o corpo e a ter vergonha dele. Além disso, começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, o que a deixou sem tempo. Após ter seu único filho, sentiu-se prostrada e ainda mais frustrada com o próprio corpo. A razão que leva oito em cada dez pessoas à academia — perder peso — foi a mesma que fez Eliane se mexer.

Ela sabia que teria de cavar um tempo para se exercitar e, assim, se matriculou em uma academia na hora do almoço. Também entrou na natação para ajudar o filho pequeno a nadar. Mas foi a corrida que a transformou em uma atleta amadora — e que a ajudou a se reconectar consigo mesma. “Hoje, minha relação com meu corpo é outra. Sei que não preciso mais escondê-lo e ele se tornou um instrumento para fazer as coisas que eu quero”, conta.

Depois de aumentar gradualmente a quilometragem, e emagrecer para poder seguir correndo sem machucar as articulações, hoje é uma corredora de ultramaratonas: já participou de mais de 200 provas menores e, de 2016 para cá, vem se dedicando à Comrades, maratona que acontece anualmente entre as cidades de Durban e Pietermaritzburg, na África do Sul, somando mais de 80 quilômetros de percurso. Para isso, hoje sua rotina envolve diferentes tipos de exercício – musculação, corrida e ioga – pelo menos cinco vezes por semana.

O MELHOR REMÉDIO

A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) para sair da zona de inatividade é de 150 minutos semanais — o que dá meia hora por dia, cinco dias por semana. E, segundo a Sociedade Brasileira de Atividade Física e Saúde, para não ser sedentário, é preciso evitar passar três horas seguidas sentado. “Mesmo no trabalho, é preciso se levantar a cada duas horas, se alongar um pouco, beber água, pequenos atos que já fazem a diferença”, recomenda Alex Florindo.

O endocrinologista e médico do esporte Yuri Galeno, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), acredita que absolutamente todos deveriam praticar exercícios: não importa a idade nem as limitações físicas, cada um deve buscar o que melhor se encaixa em seu modo de vida. “De preferência, deveria ser um hábito criado na infância e ser levado para toda a vida, mas nunca é tarde para começar, desde que com orientação médica e respeitando as limitações individuais.”

Exercício físico somado a hábitos menos sedentários é o melhor remédio para uma vida saudável. Tirar o corpo da zona de conforto faz com que a gente se conheça melhor, combate doenças variadas, das crônicas às psiquiátricas, ajuda na perda e manutenção de peso, e estimula a parte óssea, reduzindo as chances de osteoporose. “Quando praticado ao ar livre, ainda tem o benefício da vitamina D, por causa do sol”, lembra o Dr. Eid. Isso sem contar a socialização: sair de casa, interagir com outras pessoas (em especial nos esportes em grupo), fazer algo diferente são ações que ajudam a melhorar o bem-estar no dia a dia. Se nenhum argumento acima te fez sentir vontade de se mexer, faça um teste: tire o tênis do armário, saia para uma longa caminhada e deixe a endorfina agir. Se o prazer for maior que o sacrifício, você é um forte candidato a engrossar o lado bom das estatísticas.

Data: 06/07/2018