Sinfonia da Cura

Música estimula o cérebro e ajuda pacientes a enfrentarem as dificuldades de um tratamento com mais bem-estar e alegria

O premiado documentário Alive inside: a story of music and memory (Vivo por dentro: uma história de música e memória), lançado em 2014, traz histórias como a de Henry, um paciente debilitado pela idade avançada e por problemas neurológicos que afetam sua memória e sua cognição. Retraído, ele não se lembra da própria filha e tem dificuldades de se comunicar, até que resgata uma antiga paixão: a música. Depois de ouvir uma canção pelos fones de ouvido, Henry se transforma em um homem falante, capaz de citar até seu cantor favorito. Essa reação, similar à de tantos outros pacientes retratados no filme, demonstra os benefícios reais da musicoterapia, técnica de tratamento auxiliar por meio da música que pode revolucionar o tratamento de diversas enfermidades, colaborar para a melhoria de diversos sintomas e para a promoção da qualidade de vida.

Segundo o Dr. Leandro Gama, neurologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, a música estimula o cérebro de três maneiras diferentes: pela percepção musical – da melodia e da letra –, pelo reconhecimento e pela emoção. Esses estímulos têm efeito interessante em pacientes que sofrem com problemas que vão desde Alzheimer até hiperatividade. “Os benefícios da exposição à música são alvo de estudos com indivíduos de vários perfis e idades”, diz o Dr. Leandro. “Uma das teorias mais conhecidas sobre o assunto é o efeito Mozart, que mostra como crianças que ouviam música clássica quando recém-nascidas apresentam desempenho escolar melhor que as outras.”

Da mesma forma que a música estimula o aprendizado e as funções cognitivas, ela também é capaz de liberar dopamina e influenciar na sensação de bem-estar – o que tem efeito direto no tratamento de problemas como Parkinson e epilepsia, caracterizados pela deficiência dessa substância. “No caso de pessoas que sofreram lesões cerebrais, a música ainda ajuda a recuperar a capacidade de se comunicar”, explica o neurologista.

Cinco benefícios da musicoterapia

  • Estimula o aprendizado e ativa a memória
  • Alivia dores de cabeça e dores crônicas
  • Libera dopamina, aumentando a sensação de relaxamento e bem-estar
  • Reduz a ansiedade e a angústia
  • Auxilia no controle de sintomas de doenças mentais e neurológicas

MÚSICA PARA TODOS

No caso de doenças não neurológicas, a música também tem efeitos consideráveis. “Há uma forte relação entre o estímulo musical e o fortalecimento imunológico, além de esse tipo de terapia contribuir para a melhora das questões psicológicas, como a ansiedade gerada por uma doença grave, por exemplo”, afirma o médico.

A Drª. Renata D’Alpino, oncologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, defende que, seja por meio de sessões formais de musicoterapia, seja pelo simples hábito de ouvir música em casa, a prática tem efeitos positivos em pacientes com câncer. “É uma excelente estratégia de relaxamento que ajuda a aliviar os efeitos colaterais do tratamento, sem contar a contribuição com a parte emocional”, diz a médica. “A música pode proporcionar mais bem-estar e qualidade de vida aos pacientes desde o difícil momento do diagnóstico até as sessões de quimioterapia.”

Essa diferença é notória para quem frequenta a oficina de canto todas as quartas-feiras às 17h na Sala da Família do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Quem comanda os trabalhos é a musicista Filomena Camilo. “Nós recebemos tanto pacientes quanto acompanhantes, que podem ouvir a música ou cantar junto e participar da atividade”, conta ela. “Os resultados são imensuráveis. Recebemos muitas mensagens de pessoas agradecendo e relatando os efeitos positivos da música em suas rotinas.” Médicos, enfermeiros e até colaboradores da área administrativa também são treinados para acompanhar Filomena e levar a música aos pacientes.

Para Maria do Carmo Checchia Fernandes Pereira, a voz de Filomena é inesquecível. Durante o tratamento de um câncer de mama ao longo do ano passado, ela experimentou os benefícios da musicoterapia, que inclui música e outros recursos sonoros. “Eu passava seis horas no hospital fazendo quimioterapia. Um dia, a Filó apareceu com seu teclado e cantou para mim. Ali, eu senti algo, que era triste e angustiante, ficar mais leve”, lembra. Aos 89 anos, a paciente hoje celebra a cura e afirma que a música sempre teve papel fundamental em sua vida: “Sou pianista e há 40 anos atuo como voluntária em atividades musicais de outras instituições. A música nos desperta coragem e leva enorme conforto a outras pessoas”.

As sessões de terapia musical também ajudaram Adriano Teixeira de Carvalho, 39 anos, a enfrentar, por um ano e meio, o tratamento de um tumor no intestino acompanhado de outras complicações. Durante os períodos de internação, ele fazia questão de participar das sessões na Sala da Família. “Quando estava perto do teclado, sentia que as dores e o mal-estar desapareciam. Sou enfermeiro e muito ligado à música desde criança, sempre encontrei alegria nela e, em um momento de doença, não poderia ser diferente”, afirma ele, que está livre do câncer, mas que, certamente, levará a música com ele para sempre.

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Autor: RENATA CAVALCANTE
Data: 10/06/2019
Fonte: REVISTA LEVE