QUEM AMA (SE) CUIDA | Hospital Alemão Oswaldo Cruz

QUEM AMA (SE) CUIDA

Responsáveis por pessoas que demandam cuidados especiais precisam atentar ainda mais para a própria saúde

Por André Julião

No meio do ano passado, Isabel* chegou mais uma vez ao hospital com o marido, que vinha tendo uma série de pneumonias. Aos 85 anos, ele já sofreu um infarto, é diabético e toma vários medicamentos diariamente. Durante o atendimento, ela começou a relatar os sintomas do companheiro. Ao ver seu estado de nervosismo, a médica a interrompeu: “Sim, vamos cuidar dele. Mas como você está?”.

A realidade de Isabel é a mesma de muitas pessoas responsáveis por companheiros ou familiares que, em decorrência de determinadas doenças ou sequelas, se tornaram dependentes. Mesmo quem pode contratar cuidadores profissionais precisa organizar a rotina de acordo com as necessidades do paciente e acompanhá-lo em consultas e tratamentos, além de lidar com as questões emocionais de ter um ente querido em um estado de saúde geralmente irreversível. A consequência natural é o próprio cuidador desenvolver problemas físicos e psíquicos — quadro cada vez mais comum, já que, devido ao aumento da expectativa de vida da população brasileira e aos avanços na medicina que permitem que problemas de saúde antes letais sejam tratados de forma crônica, só aumenta o número de pessoas nessas condições.

Em resposta a essa questão de ordem global, em 2002, a Organização Mundial da Saúde atualizou o conceito de cuidados paliativos, que deveriam ser destinados também aos familiares. “Não existe mais a concepção de cuidados paliativos para ‘pacientes terminais’. Esses cuidados andam junto com o tratamento e contemplam, ainda, parentes e companheiros”, explica o Dr. Ricardo Caponero, coordenador do Centro Avançado de Terapia de Suporte e Medicina Integrativa (CATSMI) do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Ele ressalta que os cuidados paliativos trazem “a prevenção e o alívio do sofrimento, a avaliação impecável, a identificação precoce e o tratamento da dor e de outros sintomas não só físicos, mas sociais, psicológicos e espirituais.”

LAÇOS DE FAMÍLIA

Mesmo sobrecarregados, é comum que acompanhantes vivam o estigma da culpa e hesitem em pedir ajuda ou mesmo terceirizar o cuidado a profissionais. Antonio* cuidou por muito tempo sozinho da mulher, que tem Alzheimer, por achar que tinha obrigação de dar conta de tudo sem recorrer a ninguém. Só mudou de ideia quando sofreu uma queda em que também derrubou a esposa, que está em uma fase da doença em que a locomoção começa a ficar mais difícil. “É preciso entender que há pessoas especializadas que podem fazer parte do trabalho melhor do que você”, alerta Danilo Faleiros, psicólogo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Mesmo com uma equipe de cuidadoras, porém, Antonio não mudou o estilo de vida: não viajava, não saía com amigos e não cuidava da própria saúde, inclusive se automedicava para tratar uma artrite. Acabou tendo um infarto e precisou implantar cinco pontes de safena.

Problemas cardíacos e musculares são alguns dos que costumam ocorrer com os cuidadores. “A carga de estresse acaba liberando uma quantidade maior do que a normal do hormônio cortisol, que gera um desequilíbrio do organismo, contribuindo para o aumento da pressão arterial e a diminuição da função imunológica, entre outros problemas”, diz Faleiros. Além disso, o esforço físico feito em atividades como dar banho, trocar fralda e ajudar o outro a se levantar pode gerar problemas musculares e ósseos, como a própria artrite.

Depois de chegarem ao cansaço extremo — físico, emocional e mental —, Isabel e Antonio entenderam que não precisavam lidar com tudo sozinhos e começaram a pedir ajuda. Hoje, a presença dos filhos e de uma rede de amigos e profissionais alivia a carga de responsabilidade. Antonio começou a fazer atividade física, essencial para diminuir os níveis de cortisol no sangue e aumentar os de endorfina, hormônio que traz sensação de bem-estar. Isabel conta que, naquele dia no hospital, deu início a uma mudança de atitude em relação à sua saúde. “Precisava me cuidar para poder continuar cuidando dele”, lembra. Ela contratou uma ajudante, está tratando a ansiedade e vai começar a fazer ginástica. “É fundamental que o cuidador tenha planos, não restrinja toda a sua vida diária ao cuidado com o outro. Pensar em si mesmo vai, inclusive, aumentar a disposição para cuidar de quem ama”, conclui Faleiros

Espaço da família

Dentro de seu modelo assistencial, em que a família e o paciente são o centro do cuidado, o Hospital Alemão Oswaldo Cruz mantém a Unidade Integrada Paciente e Família. Localizado na Unidade Paulista, o espaço tem uma programação diária voltada aos familiares de pacientes internados, como prática de ioga, oficina de bem-estar (emocional, com um psicólogo, e espiritual, com uma capelã), reflexologia e musicoterapia. Para conferir dias e horários das atividades, basta acessar o site do Hospital ou ligar para os números (11) 3549-1830 ou (11) 3549-1831. Pelo telefone, também é possível agendar um horário e obter mais informações.

Autocuidado

O psicólogo Danilo Faleiros dá dicas importantes para cuidadores preservarem a saúde física e emocional:

  • Identifique causas específicas para seu sofrimento. Fuja das generalizações e busque descobrir o que mais incomoda você no dia a dia e o que pode mudar para se sentir melhor
  • Aceitação é muito importante. Entenda que a condição é permanente e que faz parte da sua vida agora
  • Trace uma estratégia de enfrentamento: identifique o que pode ser mudado e implemente a resolução do problema. Molde seus pensamentos para o que não puder mudar
  • Dê um sentido e um propósito à situação. Pense em como ela pode torná-lo uma pessoa melhor
  • Cultive redes de apoio, tanto formal (cuidadores, médicos, fisioterapeuta, psicólogo) quanto informal (parentes e amigos), e não tenha vergonha de pedir ajuda
  • Você pode ser o principal cuidador, mas nunca seja o único
  • Tenha pelo menos um momento exclusivo para si
  • Coma bem, faça exercícios e consulte um médico regularmente

* Nomes fictícios

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