PERDOAR É PRECISO

DESDE MUITO CEDO, APRENDEMOS QUE PERDOAR FAZ PARTE DA VIDA. MAS QUAL O PODER QUE ESSE ATO TEM DE NOS TRANSFORMAR E CONTRIBUIR, INCLUSIVE, PARA NOSSA SAÚDE? CONVERSAMOS COM ESPECIALISTAS PARA SABER COMO O PERDÃO E TUDO O QUE ESTÁ RELACIONADO A ELE, COMO A EMPATIA E UMA FORMA MAIS CONCILIATÓRIA DE DIÁLOGO, PODEM AFETAR DIRETAMENTE NOSSO BEM-ESTAR


Perdoar é abrir mão do direito de sentir aquela mágoa. Quando somos ofendidos, magoados ou agredidos injustamente, nos sentimos no direito de nutrir a raiva, guardar aquele ressentimento.

Suzana Avezum,
psicóloga

 
 
 

Abra o dicionário – ou a aba do seu navegador – e pesquise a palavra “perdão”. O primeiro significado que você vai encontrar provavelmente dirá algo semelhante a “remissão de uma culpa, dívida ou pena” ou “desobrigação do cumprimento de um dever”. Se a linguagem está rebuscada demais para definir algo que está no nosso vocabulário desde que somos muito pequenos, a psicóloga Suzana Avezum, com mais de 35 anos de carreira na área, simplifica: “Perdoar é abrir mão do direito de sentir aquela mágoa. Quando somos ofendidos, magoados ou agredidos injustamente, nos sentimos no direito de nutrir a raiva, guardar aquele ressentimento. Perdão é deixar para trás”, explica ela.
Por esse ser um tema recorrente em seu consultório, onde a dificuldade de perdoar se mostrava presente em assuntos familiares, amorosos, de amizade e profissionais, ela decidiu ir a fundo na questão ao perceber um ponto comum às reclamações. “Muitos pacientes relatavam que, ao lembrar de determinados assuntos, sentiam ‘uma dor no coração’. Na nossa cultura ocidental, esse é o órgão símbolo das emoções. Mas e se essa relação fosse mais do que metafórica?”, ela se questionou.
O insight foi a faísca para que ela se debruçasse em uma pesquisa que associava a capacidade de perdoar às doenças cardiovasculares. Entre os anos de 2016 e 2018, Suzana estudou 130 pacientes – metade saudável, metade já tinha sofrido um infarto do miocárdio – para analisar seus perfis, a disposição para o perdão e a relação com a espiritualidade. O resultado mostrou que sua intuição a colocara no caminho certo: quem tinha mais dificuldade para perdoar apresentava um histórico de problemas cardiovasculares. O estudo, apresentado este ano no 40º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, também apontou que 31% dos que já tinham infartado confessavam uma perda significativa de fé – entre os que não apresentaram problemas de coração, o índice foi de apenas 9%. “Lembranças ruins provocam estresse e isso prejudica nosso corpo. Ruminar os acontecimentos antigos faz com que eles se tornem presentes – e, todas as vezes que você relembra, sente tudo de novo. O efeito prolongado disso vai bombardeando o organismo com substâncias que podem prejudicar a saúde ao longo do tempo”, conclui.

Observo no consultório que muitas das queixas que geram suspeitas de doenças cardiológicas são de cunho puramente psicológico.
Dr. Pedro Graziosi, médico

MENTE SÃ, CORPO SÃO

Os efeitos a longo prazo que mágoas e sentimentos negativos podem causar na nossa saúde mostram que a relação entre nosso estado mental e físico é, muitas vezes, direta. “Existem reações autonômicas – que independem de nossa vontade – a situações de estresse agudo, como um assalto ou uma discussão, em que a pressão arterial se eleva, a frequência cardíaca aumenta e podem ocorrer palidez e sudorese”, explica o Dr. Pedro Graziosi, médico coordenador do Centro Diagnóstico de Cardiologia Não Invasiva do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Ele reforça também que, embora o perfil psicológico possa ser um fator de risco independente, causas mais clássicas para esse tipo de problema de saúde, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado e tabagismo, entre outras, também podem estar conectadas a algum transtorno emocional. “Observo no consultório que muitas das queixas que geram suspeitas de doenças cardiológicas são de cunho puramente psicológico – ou são exacerbadas pelo perfil emocional do paciente. Palpitações, arritmias, dor no peito, sensação de ofegância, entre outras, podem estar relacionadas à ansiedade. Obviamente, somente o médico, depois de solicitar os devidos exames e diante da avaliação clínica do paciente, terá condições de diagnosticar se a questão tem cunho mais psicológico ou fisiológico”, completa.
Sabendo que essa conexão é tão intrínseca, fica ainda mais fácil relacionar o aumento dos casos de infarto no Brasil – de acordo com o último levantamento da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), doenças cardíacas atingem mais de 300 mil pessoas por ano – e o crescimento dos diagnósticos de transtornos de ansiedade – o Brasil lidera o ranking mundial, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). E mais: associar esse número alarmante ao momento social que vivemos. “O enorme acesso à informação praticamente em tempo real, as mudanças de estilo de vida nas últimas décadas, a vida nas grandes metrópoles, o aumento da competitividade profissional, a banalização da violência e a perda de valores como a empatia estão, sem dúvida, entre os fatores que impactam diretamente em nosso emocional”, diz o Dr. Pedro.

PARA DENTRO E PARA FORA

Entendemos, então, que, inclusive para nossa saúde, perdoar é preciso. Mas não é tarefa fácil. Afinal, libertar-se de ressentimentos, injustiças, mágoas e conseguir abrir caminho para um diálogo honesto e conciliatório com o outro são demandas emocionais altas. Como exercitar, então, a nobre arte do perdão? A resposta, para muitos, está em três palavras que estão ganhando cada vez mais destaque na mídia: comunicação não violenta.
O conceito, que ganhou relevância com as pesquisas do psicólogo britânico Marshall Rosenberg, tem entre suas premissas o diálogo e a escuta empática, defendendo que o conflito é algo inerente às relações e, por isso, deve ser encarado de forma saudável e acolhido em nosso dia a dia. “Comunicação é coconstrução de sentido e não se faz sozinho. Só acontece quando há a correspondência entre minha expressão e aquilo que você entende. Não só no nível de palavras, mas de sentido”, explica o também britânico Dominic Barter, colega e pupilo de Rosenberg que estuda o tema há mais de 20 anos e trabalha com práticas restaurativas e mediação de conflitos.
Morando no Rio de Janeiro desde 1995, ele lembra que se chocou com a desigualdade social e ao ver como os cariocas viviam submetidos ao medo da violência. Aproveitando sua condição de estrangeiro, decidiu que não faria parte dessa estatística e encarou o problema de frente: pegou os ônibus do Rio até o fim da linha, para conhecer de perto o subúrbio perigoso do qual tanto falavam, e subiu os morros cariocas. Sua motivação era um raciocínio simples: para ele, a violência era um conflito que não foi bem resolvido e precisou de uma via bélica para encontrar solução. Assim, ao se aproximar da fonte, poderia fazer com que ele se resumisse a um conflito novamente. “Resoluções em que uma pessoa perde e outra ganha geram ressentimentos e, portanto, estendem mais o sofrimento e criam condições para futuros atritos surgirem. É óbvio que o único resultado verdadeiramente sustentável de uma situação conflitante é um que beneficia a todos. E a gente vê os resultados de ignorar essa sabedoria na situação do país, em nossas relações familiares e também na relação com nós mesmos”, explica Dominic. “A comunicação não violenta vê esses três campos – sistêmico-político, inter e intrapessoal – entrelaçados. Não há mudança sustentável em um se os outros são excluídos.” Vale lembrar que não excluir o outro da equação não pode significar colocá-lo em primeiro lugar e nos colocarmos de lado. Incluir a não violência em nosso dia a dia não significa colocar a empatia acima de tudo e se dispor a perdoar qualquer ato que nos magoou. É preciso saber discernir o que é perdão e o que é passar por cima de nós mesmos repetidas vezes para evitar um conflito ou sair de uma situação difícil, como uma relação abusiva. “Existem benefícios em encerrar determinadas situações ou cortar determinados laços em nossas vidas: é uma tentativa de diminuir a chance de que o sofrimento se repita. O perdão não deve ser confundido com abrir mão do nosso bem-estar, senão pressionamos a vítima uma segunda vez”, esclarece o britânico.

Existem benefícios em encerrar determinadas situações ou cortar determinados laços em nossas vidas: é uma tentativa de diminuir a chance de que o sofrimento se repita.
Dominic Barter

NA PONTA DO LÁPIS

O aumento da popularidade da comunicação não violenta também fez surgir, ao redor do Brasil, iniciativas que ajudam quem não é expert no assunto a colocá-la em prática. A Go, writers, escola de escrita criativa que nasceu em Porto Alegre há quase seis anos, é exemplo disso. Sua fundadora, Cris Lisbôa, já tinha uma carreira consolidada no jornalismo quando, depois de atender ao pedido de alguns amigos e conhecidos que queriam melhorar suas técnicas de escrita, recebeu um convite para sair da capital gaúcha e levar seus ensinamentos para Belo Horizonte. “As 50 inscrições acabaram em duas horas. Fui tremendo de medo, voltei apaixonada, pedi demissão e montei uma escola na sala da minha casa. Lembro até hoje do diretor da revista – eu era diretora de redação da Noize – perguntando se ele tinha entendido bem, que eu ia pedir demissão do cargo mais alto para trabalhar em uma coisa que ainda nem existia. Tive um acesso de riso porque ele tinha toda a razão”, lembra.
Além das oficinas de escrita criativa e de comunicação não violenta, Cris oferece cursos de carta de amor e os “desmanuais” de escrita – livrinhos feitos à mão com exercícios para destravar a criatividade na hora de escrever. O afeto é algo que está presente em tudo e este é um dos diferenciais que ela acredita trazerem cada vez mais alunos. “Muitas pessoas que não necessariamente trabalham com a palavra começaram a escrever em suas redes sociais e entender que isso enlarguecia seu ofício. Além disso, escrever tem se tornado parte de um processo de autoconhecimento. Em tempos líquidos, quando o olho no olho nem sempre acontece, um textão é um bom jeito de conectar”, defende Cris.
Para ela, os exercícios, que são totalmente analógicos e demandam entrega em papel e uso de caneta, têm uma forte ligação com nossa disposição para perdoar. “A medicina diz que colocar sentimentos e emoções em palavras provoca uma redução nos níveis de cortisol, hormônio ativado nos momentos de estresse”, diz. “A psicanálise defende que a escrita ensina a mente a pensar de forma mais complexa e isso ajuda nas relações com o mundo e consigo. O escritor Jorge Luis Borges acredita que ‘a escrita nada mais é do que um sonho portador de conselhos’. Eu tenho certeza de que tem coisa que só sai da gente por escrito.”


APRIMORE A ESCUTA RECEPTIVA
Muitas vezes, sem nos darmos conta, começamos a formular uma resposta na cabeça antes mesmo de o nosso interlocutor terminar de falar. Treinar a escuta com paciência, ouvindo e absorvendo atentamente o que o outro tem a dizer, para só então voltar a si mesmo e responder, promove conversas mais ricas e afetuosas.
 
 
 

CUIDADO COM ACUSAÇÕES E JULGAMENTOS
Mesmo quando estamos com a razão, partir para a ofensa ou a acusação desvia o foco da conversa e o resultado, no geral, é uma guerra verbal na qual ninguém sai ganhando. Quando estiver magoado ou incomodado com a postura do outro, no lugar de dizer, por exemplo, “você é muito irresponsável, está sempre atrasado”, experimente uma abordagem diferente, que mostre o seu incômodo sem ofender seu interlocutor – algo como: “fiquei chateado com o seu atraso, pois perdemos a sessão de cinema”.


COLOQUE-SE NO LUGAR DO OUTRO
Saber ouvir requer uma certa habilidade empática, já que, por trás da fala do outro, podem estar diversos sentimentos e emoções. Por isso, ao escutar algo que não agradou, pense com cuidado antes de responder – a pessoa pode estar cansada, triste ou ansiosa. Desenvolver essa sensibilidade na escuta e oferecer acolhimento também são medidas essenciais para mantermos nossas conexões, pessoais ou profissionais, mais saudáveis e fortes.


PRATIQUE TAMBÉM A EMPATIA CONSIGO MESMO
No processo de treinar o diálogo e a escuta, é importante não esquecermos de nós mesmos. Respeitar nossos limites também é fundamental para conseguirmos estabelecer uma troca saudável. Isso significa saber reconhecer quais situações podem ser gatilhos para sentimentos negativos, como raiva ou ansiedade, e evitá-las, ou, pelo menos, antecipá-las. Assim, conseguimos treinar o autocontrole e o discurso não reativo para lidar com cenários estressantes.


BUSQUE A SIMETRIA NA TROCA
Mesmo em relações hierárquicas – profissionais ou pessoais, como entre pais e filhos –, se houver desequilíbrio no diálogo, um dos lados sempre se sentirá oprimido e não ficará à vontade para se manifestar com honestidade, criando novos bloqueios na comunicação. Vale observar que, em uma troca, ninguém precisa sair “vitorioso”, o objetivo deve ser o acordo. Independentemente da sua posição nessa dinâmica, busque sempre esse equilíbrio na conversa: se for líder, por exemplo, dê espaço para o outro falar e se abra para críticas e opiniões; se for liderado, coloque-se na conversa e reivindique, de forma respeitosa, o seu espaço de fala.

 
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Autor: ALEXANDRE MAKHLOUF
Data: 11/12/2019
Fonte: Revista LEVE