Os vilões da saúde gástrica

EXAGERO EM ALIMENTOS GORDUROSOS, BEBIDAS ALCÓOLICAS, SEDENTARISMO… UM ESTILO DE VIDA COMO ESSE PODE TRAZER REFLEXOS NA SAÚDE. AZIA E MÁ DIGESTÃO SÃO ALGUMAS DAS CONSEQUÊNCIAS

O estilo de vida moderno com muito estresse, sedentarismo e hábitos alimentares inadequados, como excesso de comidas gordurosas e comer depressa e em horários irregulares torna cada vez mais frequentes os problemas de azia e má digestão entre os brasileiros. Às vezes, essas sensações estão apenas relacionadas aos maus hábitos de alimentação, porém, podem servir de alerta para doenças, como refluxo, gastrite e úlcera.

“Há alguns anos, foi realizado um importante estudo epidemiológico no Brasil envolvendo grande amostragem de indivíduos maiores de 16 anos de idade com queixa de azia relativamente frequente. Os resultados referentes à população urbana revelaram que 12% a 20% dos adultos podem apresentar a doença do refluxo gastroesofágico. Ela afeta predominantemente o sexo feminino e a prevalência tende a aumentar com a idade”, explica o médico gastroenterologista e diretor de comunicação da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), Dr. Joaquim Prado.

Cerca de 10% dos adultos sofrem de azia e de 35% a 45% têm esses sintomas eventualmente, segundo estima a nutricionista clínica funcional Natália Colombo. “Na maior parte dos casos, isso está relacionado a hábitos alimentares inadequados, excesso de fast-food, estresse crônico, deficiência nutricional, uso inadequado de medicamentos e bebida alcoólica. Percebemos que o uso de medicamentos para controle da azia, como o omeprazol, tem aumentado consideravelmente. Os casos de má digestão também têm aumentado”, afirma.

PROBLEMAS AFETAM A QUALIDADE DE VIDA

A azia, cujo termo médico é pirose, corresponde à sensação de queimação no tórax ou na parte superior do abdômen. A pirose com frequência igual ou superior a uma vez por semana pode ser sintoma de doença do refluxo gastroesofágico.

Já a má digestão, também chamada dispepsia, causa estufamento, azia e náuseas. “A dispepsia pode ser sugestiva de um quadro de gastrite nervosa (dispepsia funcional), na qual nenhuma
lesãoorgânica é caracterizada, mas o estômago se esvazia mais lentamente e a sensibilidade pode estar aumentada, levando à sensação de estufamento e desconforto após a alimentação. Pode estar relacionado à tensão emocional e estresse”, diz o Dr. Prado.

Azia e má digestão são, portanto, sensações independentes que se manifestam separadamente ou associadas. Podem ocorrer ocasionalmente, representando apenas uma sensação momentânea, como por exemplo, depois de ingestão exagerada de alimentos e bebidas, ou se tornarem habituais e mais intensas sugerindo alguma doença que pode afetar a qualidade de vida.

Segundo o gastroenterologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Dr. Ricardo Barbuti, a azia e a má digestão também podem estar relacionadas a outras enfermidades, como: úlceras de duodeno e gástricas; problemas da vesícula, pâncreas e fígado; verminoses; infecções como o Helicobater pylori; tumores de todos estes órgãos; e alterações metabólicas (diabetes, hipotireoidismo, doenças vasculares e cardíacas).

A DIGESTÃO INFLUENCIA NO ACÚMULO DE GORDURA?

Muitas pessoas acreditam que o corpo não consegue digerir ou eliminar o que não vai aproveitar. Assim, os alimentos mal digeridos se acumulariam e se transformariam em gordura. Entretanto, essa hipótese não é confirmada pelos especialistas.

“Não existe nenhum estudo que comprove isso. O que acontece, mas que não está diretamente relacionado ao acúmulo de gordura, é a constipação intestinal, ou seja, quando o estômago e o intestino são sobrecarregados e têm dificuldade para absorver os nutrientes”, afirma a nutricionista clínica funcional, Natália Colombo.

O gastroenterologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Dr. Ricardo Barbuti, lembra que existe a possibilidade de indivíduos obesos apresentarem a capacidade de extrair mais calorias da dieta, fator normalmente ligado à alteração da microbiota intestinal.

“Essa disbiose também leva a um estado pró-inflamatório que pode interferir no metabolismo, fome e saciedade, além de aumentar o risco de outras doenças, como gordura no fígado, hipertensão arterial, hipecolesterolemia (taxas elevadas de colesterol no sangue), hipertrigliceredemia (níveis elevados de triglicérides) e vários tipos de neoplasias”, diz.

AZIA E MA DIGESTÃO: DA ORIGEM AO TRATAMENTO

Causas do quadro

  • Comer depressa;
  • Ingestão de líquidos gasosos;
  • Hábitos de alimentação incorretos;
  • Estresse.

Sintomas relacionados

  • Dor abdominal;
  • Diarréia;
  • Prisão de ventre;

Alerta às farmácias

  • É sempre recomendável o estabelecimento do diagnóstico efetivo pelo médico, porque não existe relação direta entre a intensidade dos sintomas e a gravidade da doença. Sintomas considerados leves podem representar quadro patológico intenso e vice-versa;
  • O paciente, ao apresentar sintomas gastrointestinais com frequência, precisa procurar um gastroenterologista.

Tratamento medicamentoso

O tratamento varia de acordo com cada caso. Em geral, são prescritos fármaco como:

  • Inibidores da bomba de prótons (omeprazol, lansoprazol, rabeprasol, pantoprazol, esomeprasol, dexlansoprazol), bloqueadores dos receptores H2 (ranitidina, por exemplo);
  • Procinéticos (domperidona, bromoprida, metoclopramida, etc.).

Tratamento não medicamentoso

  • Evitar deitar logo após ter feito as refeições. O ideal é esperar, ao menos, duas horas;
  • Fazer várias refeições ao longo do dia, com porções menores de cada vez;
  • Praticar atividades físicas com regularidade;
  • Evitar o consumo de leite integral; refrigerantes; bebidas alcoólicas; alimentos picantes, gordurosos e que contenham cafeína, como café, chá mate; e chocolate;
  • Ingerir chás digestivos, como de alecrim, hortelã, espinheira-santa, melissa, camomila, boldo-do-chile e maracujá para melhorar a produção e a concentração de ácido gástrico e das enzimas essenciais para a digestão;
  • Utilizar alimentos alcalinos, como pepino, repolho, beterraba, cenoura, nabo, brócolis e couve-flor;
  • As vitaminas A, E, B12, Ceo ácido fólico encontrados nas frutas e hortaliças ajudam a recuperar a mucosa do estômago.

Fontes: nutricionista clínica funcional, Natália Colombo; médico gastroenterologista e diretor de comunicação da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), Dr. Joaquim Prado; e gastroenterologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Dr. Ricardo Barbuti.

Data: 12/02/2020
Fonte: GUIA DA FARMÁCIA/SÃO PAULO