“Coisa de gente doida”: por que a terapia ainda é vista com preconceito?

Normalmente as dores sentimentais são vistas como bobagem ou "coisa da cabeça", algo que uma hora vai passar. São consideradas problemas menores e até mesmo falta de questões mais sérias ou de trabalho para fazer.

“Coisa de gente doida”: por que a terapia ainda é vista com preconceito? “Sempre achei que você tinha cara de doida”; “É frescura”; “É dinheiro jogado fora”.

Frases como essa são muito comuns no dia a dia de quem faz terapia. Tanto que muitas pessoas decidem nem compartilhar esse fato. Mas por que um tratamento reconhecido cientificamente é tratado como algo luxuoso ou só para quem tem problemas sérios? O primeiro preconceito sobre a psicoterapia é a percepção de que esse tipo de tratamento é só para pessoas com algum problema mental.

Mas os especialistas entrevistados pelo UOL VivaBem acreditam que essa impressão vem diminuindo e era mais comum nas gerações anteriores à atual. Para eles a base desse e dos outros preconceitos está na separação que as pessoas fazem da saúde mental e da física.

Nessa divisão, os problemas psíquicos acabam sendo deixados para segundo plano. Tanto que, quando falamos em dor, a primeira coisa que vem à cabeça é ela no formato físico e não no aspecto sentimental.

Normalmente as dores sentimentais são vistas como bobagem ou “coisa da cabeça”, algo que uma hora vai passar. São consideradas problemas menores e até mesmo falta de questões mais sérias ou de trabalho para fazer. Mas quando elas se acumulam, acabam se expressando em problemas mais sérios, como a depressão, ansiedade e, em casos graves, suicídio. Por isso a associação.

Para a maioria, falta a percepção de que pontos mal resolvidos no passado podem influenciar em questões atuais. Há também o desconforto que as pessoas sentem em lidar com traumas e o medo de parecer vulnerável ou mesmo fraco.

Outro ponto relevante dentro desse preconceito é o valor gasto quando se procura esse tipo de tratamento de forma particular. É claro que tudo depende daquilo que a pessoa considera um valor alto ou não. Mas como muitas pessoas não dão tanta importância ao cuidado com a saúde mental, a percepção de custo-benefício não parece boa.

Quando se busca seguir esse tratamento via convênio médico, as pessoas encontram outros empecilhos, como a necessidade de ter um encaminhamento de um clínico geral ou psiquiatra.

Por isso muita gente também encara a psicoterapia como um luxo, que por muitas vezes parece até desnecessário. Tudo isso afasta as pessoas de um tratamento psicológico. E quem decide mesmo assim ir mais a fundo em suas dores emocionais e enfrentar todos esses obstáculos destoa do senso comum, podendo ser visto com estranhamento pelos outros.

Por fim, as condições mentais e físicas não deveriam ser tratadas separadamente. “Se olhássemos para os dois em conjunto, evitaríamos momentos de sofrimento”, afirma Enriete Tognetti, psicóloga e coordenadora do Centro Escola do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo).

Nem todos os problemas emocionais carecem de especialistas. Se abrir com um amigo ou com algum familiar ajuda em algumas questões. No entanto, vale a pena buscar ajuda especializada quando apenas conversar não resolve, se você sente que alguma questão o preocupa excessivamente, se anda descontando isso em algum hábito (como tomar café, beber álcool, fumar ou comer) e se você sente impactos físicos e na sua rotina, como no trabalho ou nas relações interpessoais.

É importante ressaltar que a ajuda psicológica é muito diferente de um desabafo com amigos, pois o psicólogo trabalhará pontos de forma imparcial e tentará, aos poucos, apresentar soluções para os problemas. À primeira vista, as sessões podem causar estranheza e desconforto ao paciente. Por isso é importante buscar um psicólogo que o deixe confortável para expor pontos íntimos.

Pode demorar algumas semanas para o paciente e o profissional pegarem confiança. E, se as sessões não “fluírem”, vale buscar outro terapeuta. Não importa em qual região do Brasil você está. Existem diversas universidades particulares e públicas que oferecem serviços gratuitos ou com valores simbólicos em consultas.

Nas particulares, a partir do quinto ano, alunos já começam a atender sob supervisão de professores e pode haver cobrança ou não das sessões. É importante conversar com as instituições e se informar melhor. Já nas públicas, principalmente nas Universidades Federais de cada estado, também há consultas gratuitas supervisionadas, plantões de atendimento e orientações dos núcleos de psicologia ou psiquiatria.

Na dúvida, ligue para a universidade mais próxima de você e pergunte sobre as possíveis filas de espera.

Fontes: Enriete Tognetti, psicóloga e coordenadora do Centro Escola do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo); Danilo Faleiros, psicólogo do Hospital Alemão Osvaldo Cruz.

Data: 09/11/2018
Fonte: Uol Viva Bem/ São Paulo